NÚMERO 36 LONDRES 15 DE JULHO - 15 AGOSTO - 2002
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Internacional

Saddam Hussein com o Tempo Contado

Janeiro 2003, a data já está marcada. Os Estados Unidos se preparam para invadir o Iraque, com ou sem o apoio dos países tradicionalmente seus aliados, com a finalidade de derrubar Saddam Hussein do poder.
Bush Jr está determinado a terminar o trabalho que seu pai deixou incompleto em 1991 e não se deixará convencer pelos gritos de protestos vindos da Europa, nem pelo medo da oposição vinda do bloco muçulmano.
Pelo sistemático esforço em adquirir armas nucleares, pela recusa em permitir a entrada de inspetores das Nações Unidas em seu território e pela certeza americana de que Saddam apóia atividades terroristas, Bush considera que quanto mais tempo ficar no poder, mais perigoso se tornará.
O governo americano não está sozinho e nos últimos dois meses conseguiu angariar o apoio de países influentes no mundo árabe, tais como Egito e Síria.
Militarmente auto-suficiente, Bush dispensa a ajuda militar da Europa e está mais interessado em assegurar o apoio dos vizinhos do inimigo, cujos territórios serão uma necessidade estratégica. Para tanto, já conta com a ajuda da Turquia, de onde pretende atacar com a ajuda dos rebeldes Kurds, que ocupam o norte do Iraque. Conta também com a Jordânia a oeste e o Kwait ao sul.
A Inglaterra, sem fazer muito alarde, é um forte aliado e já está cooperando com o projeto. Agentes do serviço secreto inglês (M16), juntamente com a CIA, encontram-se no território iraquiano a fim de incitar revolta interna e negociar com possíveis traidores ao regime. No entanto, oficiais do serviço de inteligência inglês acreditam que só intervenção militar conseguirá remover Saddam do poder.
A remoção de Saddam abrirá uma enorme comporta de petróleo para o ocidente, hoje totalmente dependente da Arábia Saudita.
Não apenas os Estados Unidos e Inglaterra, mas também a França, China e Rússia estão ansiosos pelas promessas de um Iraque 'liberado'. Referindo-se às reservas de petróleo, Bush declarou: "Não há nada semelhante no mundo inteiro. É um grande prêmio. Nós estamos olhando para um futuro em que a dependência ao óleo do Golfo terá dobrado. A segurança na região é, portanto, uma questão de fundamental importância."
Na segunda semana de julho, 90 oficiais iraquianos dissidentes reuniram-se em Kensington Town Hall, em Londres, para discutir a formação do iraquiano após a queda de Saddam.
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Imprensa Inglesa Poder sem Voto

Em julho, quatro dos maiores jornais ingleses - Financial Times, The Times, The Guardian e The Independent - deram mostras de independência por desafiarem publicamente a mais alta Corte do Poder Judiciário inglês.
Os quatro jornais decidiram desobedecer a decisão da Casa dos Lordes, que manteve a ordem judicial obtida pela empresa Interbrew, segundo a qual os jornais deveriam entregar a fonte de informação de um furo jornalístico envolvendo a Interbrew, companhia belga, e a Cervejarias Sul Africanas.
Na opinião dos jornais, o caso é um teste crucial à liberdade da imprensa e à relação de confidencialidade entre os jornalistas e seus informantes. Argumentam que, a menos que os jornais tenham o direito de proteger a fonte de informação, não será possível à imprensa exercer sua principal função, que é de investigação independente em questões de interesse público, especialmente em um período de insegurança geral em relação às grandes corporações. Os quatro jornais estão ameaçados a serem indiciados por desacato à Corte.
A atitude desses jornais exemplifica o poder de uma imprensa que se mantém independente do poder constituído. Não há dúvida de que cada jornal segue uma orientação política mas, em geral, a imprensa continua sendo uma das instituições mais influentes na malha social inglesa.
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Suruba na Seringa

O que acontece quando de um casal branco nasce um casal de gêmeos negros? A troca de óvulos, espermas ou embriões é o grande pesadelo da fertilização em laboratório
Não é a primeira vez na história da fertilização intra-vitro (IVF) que casais descobrem não serem os pais genéticos de seus filhos. O último caso conhecido ocorreu na Inglaterra no mês de julho.
Após tratamento de inseminação artificial, um casal branco teve gêmeos negros. Tudo indica que o material coletado desse casal foi confundido com o de outro casal negro, que fazia tratamento na mesma clínica. O nome dos envolvidos, inclusive da clínica, ainda estão protegidos pelo sigilo de justiça.
Ainda não se sabe em que ponto do processo o erro foi cometido. Há três possibilidades que levam a diferentes implicações jurídicas:
- Embrião do casal negro inserido no útero da mulher branca.
- Esperma do homem negro inseminado no óvulo da mulher branca.
- Esperma do homem branco inseminou óvulo da mulher negra e foi inserido no útero da mãe branca.
O caso abre importantes questões éticas e jurídicas, pois não se trata de inseminação por doação de esperma, em que o pai abre mão da paternidade. Nem se trata de mãe de aluguel, que deu permissão para a inoculação de embrião alheio, caso em que a mãe biológica tem o direito protegido.
Erros como este não são comuns, mas são possíveis e levantam a desconfiança de que possam acontecer sem serem percebidos quando envolvem casais da mesma raça. Tornam-se uma tragédia se ocorrem entre casais que recorreram à clínica pois não podem ter filhos.
Em 1993, na Holanda, Wilma Stuart, branca, deu à luz dois meninos, um branco outro negro, por erro básico de higiene. A pipeta utilizada para inseminar o óvulo continha esperma de seu marido e de um cliente negro. O DNA confirmou que ela era a mãe biológica das duas crianças, mas a questão para Wilma é aceitar o fato de ter um filho de alguém que ela não conheceu.
Porém, se ficar constatado que as duas crianças são filhos biológicos do casal negro, caberá à clínica investigar onde foram parar o óvulo e esperma do casal branco.
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Casamento Transsexual Reconhecido na Inglaterra

Transsexual inglês ganhou o direito de ser reconhecido como mulher e poder se casar sob as leis britânicas, de acordo com uma decisão da Corte Européia de Direitos Humanos, que abriu precedente para o reconhecimento civil de uniões entre os 5.000 transsexuais do país.
O painel de juízes reconheceu por unanimidade que a recusa pelo governo inglês de reconhecer a nova identidade de Christine Goodwin, 65 anos, e transsexual desde 1990, infringe o direito à vida em família, protegido pela Lei dos Direitos Humanos.
Miss Goodwin conta que sofreu muito desde que fez a operação para mudança de sexo, pois apesar de viver como mulher, a lei continuava tratando-a como homem. Em função disso, não pode aposentar-se aos 60 anos e foi impedida de processar um empregador por discriminação sexual.
Miss Goodwin desde criança vestia-se como mulher. Fez terapia de aversão, casou-se e teve quatro filhos. Até 1985, tentou manter sua sexualidade em segredo e trabalhava como motorista de ônibus, vestindo-se como homem, num ambiente predominantemente masculino. Porém, em 1985, foi "diagnosticada" transsexual, iniciou tratamento de hormônios e foi operada pelo National Health Service (NHS), em 1990.
Após a operação, Miss Goodwin sofreu insultos dos colegas de trabalho e tentou processar o empregador por discriminação sexual, mas o tribunal do trabalho inglês decidiu que a lei não se aplicava a transsexuais.
As leis britânicas continuam ultrapassadas e não refletem a atitude tolerante da sociedade em relação à tendência sexual de cada um.
O governo inglês foi criticado pelos juízes da corte européia, que incluíram no corpo da decisão: "Apesar desta Corte ter reiterado em 1986, e mais recentemente em 1998, a importância de atualizar as leis de um país de acordo com o desenvolvimento científico e social, nada foi efetivamente feito pelo governo em questão." Segundo a Corte, hoje os termos "homem" e "mulher" não podem mais ser definidos exclusivamente segundo o critério biológico.
A decisão reavivará o processo de reforma legislativa inglesa que visa garantir ao transsexual o direito de mudar a certidão de nascimento e de se casar.
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Governo pega leve na Maconha


É interessante observar como o governo de Tony Blair lida com questões controversiais. A maconha é uma delas. Há um ano o Secretário do Home Office, David Blunkett, tenta relaxar as leis contra o uso da maconha. A idéia, que agrada aos consumidores e ao governo que gostaria de ver a polícia entretida com crimes mais sérios que, no ano passado, atingiram níveis altíssimos.
A política de relaxamento, porém, desagrada várias parcelas da sociedade e da polícia metropolitana também. Apesar da controvérsia, sem mudanças definitivas na legislação, o governo continua implementando planos pilotos. No começo do ano, a polícia em Brixton adotou a política de tolerância e fez vistas grossas à posse da maconha para consumo. No outono, o experimento será estendido por toda polícia Metropolitana de Londres.
Sem querer assumir uma posição clara, evitando o risco de desagradar eleitores, a posição do governo continua ambivalente: não descriminaliza o uso através de legislação clara, nem pune de acordo com a lei presente. Deixando polícia e sociedade no escuro.
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George Michael Teme os Estados Unidos

O cantor George Michael pensa em ficar longe dos Estados Unidos por enquanto, onde é visto como defensor da organização terrorista Al-Qaeda, depois do lançamento do seu novo disco, Shoot the Dog, em que critica a guerra ao terrorismo. O artista lançou também um vídeo-clip para o disco, onde Tony Blair aparece dividindo a cama com Bush, ou correndo pelo gramado da Casa Branca como um cachorrinho.
George Michael argumenta que a intenção não era o lançamento nos EUA, mas que o filme e a música eram uma crítica a atuação de Tony Blair e ao apoio incondicional que dá aos EUA.
O protesto passou desapercebido na Inglaterra, mas causou a ira dos poucos fãs americanos que restaram depois do escândalo do lavatório público em Los Angeles, em 1998.
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Brasil não é só Futebol - Caetano no Festival de Jazz de Viena

Caetano Veloso também deu show de bola no Festival de Jazz, realizado do dia 29 de junho a 13 de julho, na capital da música, dividindo o magnífico teatro romano com os maiores nomes da atualidade.
Dirigido por Jaques Morelenbaum, o show de Caetano, altamente percussivo e firmente enraizado em seu novo álbum Noites do Norte, foi um dos pontos altos do festival e encantou artistas, platéia e críticos.
Caetano impressionou por sua versatilidade e arrancou aplausos com o solo e violão sereno e intimista Desde que o Samba. Ao lado de Morelenbaum, reprisou a balada Cucurrucucú Paloma, que canta no filme Hable com Ella, do seu velho amigo Pedro Almodóvar.
"A habilidade de Veloso de mudar da bossa nova para o samba, jazz, rap e eletrônica, sem perder o ritmo, o eleva acima de qualquer músico contemporâneo que conheço. David Bowie talvez seja o equivalente mais próximo, porém a musicalidade de Veloso e sua banda, lindamente dirigida por Jaques Morelenbaum, é muito mais sofisticada."
Clive Davis, crítico, jornal The Times, 12 julho 2002.
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