NÚMERO 36 LONDRES 15 DE JULHO - 15 AGOSTO - 2002
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Um Dia Na Vida De...


LUA

Nome artístico de Gabriela Almeida Alqueres, brasileira de 26 anos que conheceu sua paixão pela música em Londres. Sem fazer planos, segue os caminhos traçados pela música, que compõe e canta com a mesma espontaneidade.


Vanessa Schultz - Texto

Sou cantora e compositora de rock pop alternativo. Gosto de rock mas sem compromissos. Minha música é espontânea e reflete os sentimentos de uma brasileira que vive em Londres e absorveu coisas daqui também. É sempre o resultado do que vi e ouvi, sentimentos de Europa e Brasil me inspiram. Acho que faço uma música honesta, pois hoje sou esta mistura.
Cheguei em Londres há dez anos, quando tinha 16, tinha terminando o colégio e curtia rock, que comecei a descobrir em Santo Amaro, bairro de São Paulo, onde morei. Tinha uma idéia muito vaga de fazer música. Era um desejo tímido, pois não tinha confiança em mim mesma. Aquela foi minha fase dark, que não se apagou completamente, pois vem dela o nome que adotei: LUA.
Durante meu primeiro ano aqui, eu estudei inglês e viajei pela Europa. Depois, fui para os EUA, mas compreendi que não era meu lugar. Voltei e comecei a tocar guitarra sem grandes ambições. Enquanto descobria meu dom pela música, fui adiando meu plano de voltar para o Brasil, fazer faculdade e arrumar emprego. Um plano que nunca aconteceu.
Não acho que a música surgiu em minha vida só porque estava em Londres. Talvez surgisse de qualquer maneira, pois é o que gosto de fazer e desejo é coisa misteriosa e poderosa. Mas penso que em Londres foi mais fácil, porque aqui conheci muitos músicos, comecei a ter aulas de guitarra e tocar em bandas de cover, em pubs de subúrbio.
Trabalhava numa loja de sapatos para completar o orçamento, mas também cantava nos metrôs e nas ruas. Até que as bandas começaram a render mais. Foi ótimo, pois parei de trabalhar e comecei a me dedicar totalmente à música. Nesta época senti que evolui musicalmente.
Um dia, fui chamada para um teste e passei. Comecei então a tocar em bandas de artistas profissionais e a fazer o backing vocal e guitarra para diversas bandas. Durante quatro anos, fiz turnês pela Europa. Tocando ali no back, fiz apresentações em televisão e rádios, conheci muita gente boa e lugares que jamais conheceria.
Foi uma fase super divertida, não fosse pelo fato de tudo se tornar repetitivo para mim. Os teatros já começaram a se tornar iguais. A verdade mesmo é que eu cansei de trabalhar para os outros e queria fazer minha própria música.
Em 2000 decidi parar de viajar e começar uma nova fase na minha vida. Tinha algumas idéias que foram escritas enquanto fazia turnês. Comecei a trabalhar em cima delas para o meu disco solo. Foi como se eu estivesse começando do início. Mas, com a perda de minha mãe, fiquei quase um ano sem fazer nada, pois ela que me ajudava muito, era uma pessoa que me dava muita força, acreditava em mim e recebia um grande incentivo dela para fazer as coisas de que gosto. Só em outubro 2001 consegui lançar meu disco solo. Nele, canto minhas músicas, toco guitarra e violão. Preparei os acompanhamentos eletrônicos e fiz toda a produção e parte da programação.
As músicas desse disco têm melodia triste, melancólica. Não foi uma escolha proposital, penso que teriam surgido das cenas underground que vivenciei na Inglaterra e Europa. Em vários sentidos esse disco é o resultado dos anos anteriores de trabalho, dos quais extraí experiência, condições de comprar equipamentos e ajuda de profissionais que conheci durante aquele período.
Às vezes as pessoas esperam samba de uma brasileira. Mas a coisa não funciona assim. Para mim não teria sentido fazer música brasileira só porque nasci no Brasil, ou fazer música inglesa porque estou na Inglaterra. Ironicamente, conheci mais estilos musicais brasileiros quando já morava aqui. Na Inglaterra eu fui descobrir a nossa música e me apaixonar pela MPB. Mas, apesar disso, não é o que eu faria nesse disco.
Minha base de referência é sempre a minha própria experiência, mescla de Brasil e Inglaterra. Eu descrevo realidades, experiências e idéias vividas no meu país, mas componho com mais naturalidade em inglês, pois é a língua que estou falando todos os dias. Só no ano passado comecei a conviver mais com os brasileiros, de quem ainda sou amiga.
Enquanto estou em Londres, procuro fazer parte daqui, onde me sinto realmente em casa. Aproveito a cidade para curtir as várias opções culturais, assistir a shows de outras bandas, de todos os estilos possíveis. Sinto falta de não ter aqui muita opção para sentar ao ar livre com os amigos, beber, comer e ficar no papo até tarde, e sinto saudades do mar, do sol, do clima, da simpatia dos brasileiros. Tenho vontade de morar no Brasil novamente, mas não sei quando isso poderia acontecer, porque nunca consegui planejar muito a minha vida.
Uma vez por ano, no mínimo, vou para lá. No começo não ia muito porque o tempo passava, estava sempre ocupada com o trabalho e não percebia. Sempre deixava para depois. Mas o tempo me ensinou a dar mais valor à família.
Quando eu era mais nova, achava que meus pais eram imortais. Pensava: "Vou viver aqui, depois volto e passo o tempo todo com eles". Compreendi que não tenho controle sobre os acontecimentos depois que minha mãe morreu. Hoje a família passou a ser muito importante. Aprendi isso de uma maneira muito drástica. Por isso, a última vez que fui, resolvi ficar quatro meses com meu pai. É claro que não vou ficar no Brasil só porque pode acontecer uma desgraça todos os dias, mas tento conciliar.
Acredito neste caminho que escolhi para mim porque eu me encontrei nele. Não quero olhar para trás e pensar que não fiz alguma coisa. Pode ser que eu faça e não dê certo, mas tentei. Cantei, escrevi, fiz minhas músicas. Sei que não tenho nada a perder.

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