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Língua Brasileira
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Kledir Ramil, cantor, compositor e escritor, forma com seu irmão a dupla Kleiton & Kledir. É autor de crônicas bem humoradas que têm sido publicadas por alguns dos maiores jornais e revistas do Brasil.
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A Palavra Mais Feia
A palavra mais feia da língua popular brasileira é "buchada". É claro, existem outras como "artelho", "recidiva", e "escrutínio", mas "buchada" é a pior das piores. É mole, pegajosa e tem um som horroroso. Enfim, uma palavra nojenta.
Em qualquer língua é difícil conseguir expressar-se com bom gosto. A escolha certa das palavras é uma arte. Mas no Brasil, nosso problema começa cedo. Vamos para a escola aprender a ler e escrever e nos ensinam esquisitices como "sinédoque", "prosopopéia", "metonímia" e "onomatopéia". Parece nome de tia velha. Alguns verbos deveriam ser proibidos: "engambelar", "achincalhar", "enrobustecer", "negligenciar", "obliterar", "corroborar", "untar", "escarnecer", "avacalhar". Tudo bem que a língua tenha algumas recaídas, mas não dentro da sala de aula.
Certas palavras, de tão feias, acabam comprometendo aquilo que elas precisam representar. Não lembro de nenhum poema que use a palavra "orelha". Em compensação "boca", "olhos" e "cabelos" são sempre citados quando um poeta quer cantar a mulher amada.
A área da saúde é pródiga em palavrões. "Epiglote", "mecônio", "seborréia", "icterícia", "esfíncter", "prognóstico", "esquistossomose". As especializações são um capítulo à parte: "otorrinolaringologista", "oncologista", "psicobroncopneumogastro-sei-lá-o-quê". Cada coisa que dá medo. Sem falar do "proctologista", pela própria natureza do serviço. Aliás, eu não entendo o que leva um ser humano a se dedicar à proctologia. Talvez um trauma de infância ou uma fase anal mal resolvida. Sabe Deus.
Outro dia fui fazer um exame de "esofagomanometria" e tive que tomar fôlego antes de falar pra moça do balcão. Consome tanto ar quanto "inconstitucionalissimamente" o maior palavrão brasileiro, que sinceramente pode ser substituído por "de maneira inconstitucional". Muito mais elegante.
Há palavras que atrapalham certas idéias. "Misericórdia", por exemplo. As pessoas ficam envergonhadas de pedir uma coisa que soa tão esquisito e acabam não abrindo a boca. Ou então pedem em inglês.
Algumas palavras usam letras demais para explicar coisas simples. É uma inflação desnecessária, uma sopa de letrinhas.
Gosto de vocábulos objetivos e que tenham a cara do seu significado. Falo isso porque algumas palavras estão no lugar errado, querem dizer outra coisa. Foram escaladas para funções que não combinam com elas e ficam ali, meio sem graça, cumprindo sua missão. "Palíndromo" seria um bom nome para um quadrúpede herbívoro das savanas africanas, mas só arranjou emprego no serviço público gramatical brasileiro. "Giárdia" é muito delicado para ser um verme. Ficaria bem como plantinha de decoração. "Hipérbole" daria um belo nome de moça, mas acabou sendo usado como figura geométrica e de linguagem. "Vodca" seria um bom sobrenome se já não estivesse tão desgastado. "Urinol" poderia ser nome de remédio e "gaveta" um tipo de embarcação à vela. "Mamata" poderia ser o nome brasileiro do sutiã, já que ele nunca ganhou um nome decente por aqui.
São palavras que estão fora de lugar. Teriam que ser recicladas.
Outras já estão tão marcadas, tão impregnadas de seus significados que não têm salvação: "porco", "catarro", "sepulcral", "político" e "sarrabulho" dão nó no estômago.
Proponho uma reforma gramatical onde seriam eliminadas as palavras desagradáveis. Ou melhor, seriam substituídas por outras mais simpáticas. Eu, por exemplo, criei uma palavra muito interessante, "miloca", mas ainda não encontrei utilidade para ela. Se você tiver alguma idéia, cartas para a redação.
Mas enquanto não sai essa reengenharia linguística, temos que interditar com urgência alguns casos perdidos. "Hebdomadário", "acórdão", "protuberância", "vicissitude" e, é claro, "buchada" não têm mais jeito. Só passando a borracha.
Kledir Ramil

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