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Um Dia na Vida de...
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Sandra Almeida
Sandra, recifense, determinada a encontrar estabilidade em Londres, conta como está executando com paciência planos traçados para abrir seu próprio negócio
Sempre gostei de levantar cedo. Meu despertador está constantemente ajustado para as 4:00 da manhã, embora eu levante às 4:15.
Meus primeiros quinze minutos do dia passo deitada na cama me preparando mentalmente para o que vem pela frente. Penso no rumo que minha vida vai tomando. Gosto de orar neste horário e vou ajustando o corpo e a mente para levantar.
Aqui mudei muitos dos meus antigos hábitos e não tomo mais três banhos por dia. Tomo banho antes de dormir e começo o dia com uma rotina mais rápida e simples.
Já vestida, passo o protetor solar mesmo no inverno e tomo um copo grande de leite. Na realidade não gosto de leite, mas comecei a tomar por causa do cálcio. Além disso, não vou conseguir comer nada até às 9:30 da manhã, quando termino a primeira entrega de cartas do dia.
No verão, é muito bom ir para o trabalho assistindo o amanhecer. Mas o que me motiva a sair cedo da cama é a idéia de que quanto mais cedo começar o trabalho, mais cedo ele vai terminar.
Eu tive duas fases de Inglaterra. Na primeira, como estudante, vim porque procurava algo diferente na vida. Tinha concluído o magistério, montado uma escola para alunos de primeiro grau e, com a ajuda das minhas irmãs, o negócio prosperou. Hoje, elas ainda mantém a escola, que continua crescendo. Mas eu senti que precisava de algo novo. E, assim, decidi sair do Brasil.
Aqui, trabalhei muito para poder pagar a escola e renovar o visto, mas logo senti que trabalhar para pagar escola e renovar o visto parecia um círculo sem fim. Percebi que, por mais cansada que eu estivesse da minha realidade no Brasil, não fazia sentido o esforço para permanecer aqui. Porém, eu tinha conhecido um brasileiro e, no ano em que passei no Brasil, mantivemos contato. Todos os domingos o Orestes me telefonava. Em 1997, voltei para cá e casei com ele.
Desde o começo do casamento nosso objetivo foi comprar uma casa. Começamos a trabalhar pesado e a economizar tudo o que era possível.
Cortamos todas as despesas. Nós dois somos muito caseiros, saímos pouco. Nosso único luxo era nas datas importantes, como aniversários, quando abríamos um vinho e perguntávamos o que outro 'realmente' queria ganhar.
Não foi um período tão difícil, pois um dava força para o outro e nos policiávamos mutuamente. Orestes adora comprar roupas. Então, era eu a convencê-lo a deixar uma super-queima de inverno passar em branco.
Meu inglês era muito ruim e, mesmo com toda boa vontade, sem inglês não era possível encontrar um bom trabalho. Durante os dois primeiros anos Orestes me dava aulas todos os dias e me dediquei muito para vencer a barreira da língua, pois sonhava em conseguir um emprego permanente.
Quando me senti mais segura, comecei a estudar manutenção de computador. Levada pela vontade de me especializar em alguma coisa e encorajada pelo apoio da minha família, fiz o curso até o fim, mas ficou claro que eu não iria ser feliz consertando computadores.
Continuei trabalhando como garçonete e cleaner sabendo que, quando pudesse escolher o que fazer em termos profissionais, teria que ser alguma coisa que me fizesse feliz. Agora vejo que, quando saímos do nosso país, começamos do nada e temos que sacrificar alguns anos fazendo o que não queremos, para então ter condições de fazer algo interessante.
Há um ano e meio atrás, comecei a trabalhar para o Royal Mail como carteira, onde começo às 5:00 da manhã e termino por volta do meio-dia. Quanto mais rápido eu trabalhar, mais cedo posso ir para casa.
Eu entrego cartas em uma rua e algumas de suas adjacentes na região de Old Street, em Islington. É uma área 'pesada' porque é central. Tem casas e muitos escritórios. Mas eu tenho sorte, pois os prédios são escritórios e posso deixar as cartas na recepção. Há dois Council States que são pequenos e, por isso, felizmente posso usar um trolley para carregar todas as cartas.
No Post Office em que trabalho há pelo menos 300 carteiros, mas apenas umas 20 mulheres. Isso porque, se a pessoa estiver numa área em que não pode usar o trolley, terá que carregar tudo em sacolas e o trabalho se torna muito pesado. É muito comum carteiros terem problemas na coluna.
Minha única reclamação foi neste verão. Eu não agüentava de calor com as calças de polyester do nosso uniforme e perturbei minha gerente até ganhar um par de shorts. É que a gente precisa correr, subir escadas e o shorts é muito mais confortável.
O bom de cobrir uma área só é que a gente acaba conhecendo quem é quem na rua, o que torna o trabalho muito mais rápido, especialmente porque a numeração das casas às vezes é complicada e se confunde com a numeração das ruas adjacentes. Mas a gente acaba reconhecendo pelo nome dos moradores.
A maioria respeita o carteiro e nos atende bem quando temos que entregar pacotes ou recorded deliveries. O mesmo não se pode dizer dos cachorros. A birra do cachorro com o carteiro é verdadeira, a ponto do cachorro ser um dos tópicos do nosso treinamento. Somos alertados a não empurrar a tramela da caixa de cartas com a mão. Eu mesma quase tive os dedos mordidos e uma vez fui atacada por um cachorro que latia toda vez que eu passava pela porta de um apartamento. Parece que a dona deixava a porta aberta de propósito. Só que um dia o danado pulou o cercadinho que o segurava e veio para cima de mim. Foi uma vez só. Reportei o incidente para o gerenciamento e no dia seguinte a dona recebeu uma carta de reclamação do Royal Mail. Não sei o que escreveram na carta, mas nunca mais ouvi o bicho.
Apesar das greves que estão programando para aumento de salário, eu gosto do lugar em que trabalho e procuro dar o máximo de mim.
Meu marido já trabalhava como técnico de laboratório. Quando eu também consegui um emprego fixo, conseguimos o comprovante de renda necessário para comprar nosso apartamento, para onde nos mudamos felizes apenas com uma mesa e quatro cadeiras.
Quando alcançamos nossa meta, decidimos que estava na hora de nos darmos um pouco de tempo, pois aqui a gente corre o risco de se jogar no trabalho só para juntar um pouco mais. Até julho, eu trabalhava no Post Office e fazia cleaner à tarde junto com o Orestes.
Deixei o cleaner e em setembro começo um curso de beauty therapy, que é o que realmente gosto. Se tudo der certo, quando terminar talvez possa largar o Post Office e abrir meu próprio negócio. Aí sim, acho que terei conseguido o que vim buscar aqui.

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