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Um Dia na Vida de...
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Mariá Rodrigues
Karina Nicolich - texto
Mariá, 50 anos, carioca, no Rio era atriz e professora de expressão corporal. Em Londres é modelo artístico. Do palco para estúdio de
arte sua atuação continua profissional.
Cheguei em Londres em julho de 2002. Eu estava na Alemanha havia três meses, mas as coisas por lá são muito mais difíceis do que aqui, principalmente para estrangeiros. Foi quando uma amiga que já morava em Londres me convidou pra vir e, como ela estava saindo de férias para a Espanha, eu poderia substituí-la no trabalho de cleaner.
No Brasil eu trabalhava com jornalismo, fazendo pesquisas encomendadas e também atuava em teatro. Mas infelizmente o teatro, como em qualquer parte do mundo, não permite viver somente dele, e eu era obrigada a atuar quando alguma peça me interessava. Meu sustento mesmo vinha do jornalismo e do trabalho corporal, utilizando a yoga para desenvolver o balanceamento das pessoas.
Foi meio por acaso que me tornei modelo vivo em Londres. Eu procurava cursos na área de saúde, que é uma área muito necessitada aqui, mas eram todos muito caros. Resolvi então procurar na área de teatro e arte e encontrei o life painting course. Pensei comigo: por que não? Liguei para algumas escolas e fui informada de uma agência de modelo artístico. Liguei para a agência, marcaram uma audição, fui aprovada, imediatamente registrada e comecei logo a trabalhar. Não parei mais.
O bom em trabalhar como modelo artístico é que idade e formato de corpo não fazem a menor diferença, e um dos requisitos básicos para ser modelo é ver o próprio corpo com naturalidade, gostando e não tendo vergonha dele, independente da forma. Gordo ou magra, bonita ou feio, careca ou cabeludo, todos são aceitos. Tem até senhoras de setenta e poucos anos que ainda posam. Mas não é pelo fato de ser uma área democrática de trabalho que todos conseguem viver dele. Para ser modelo é preciso ter paciência, se manter imóvel por muito tempo e ter uma certa flexibilidade corporal.
Eu acabei me destacando devido às minhas performances. Eu sou uma modelo performática e também me interesso pelo processo criativo dos alunos e artistas. Existe a participação integrada em estúdio, ou seja, alunos, artistas, professores e supervisores permitem que eu crie poses com total liberdade de drama, cenário. Eu sou atriz, então eu faço do estúdio o meu palco e das minhas poses uma atuação. Eu uso o que está ao meu redor para criar e dar mais estímulo ao artista. Uso escada, roupa, colcha, banco, jóias, até meu cabelo. Para que o processo de criação do grupo haja maior motivação, eu pesquiso gestos, poses e dramas o tempo todo em revistas, livros e espetáculo de dança que assisto com certa freqüência. Estudo o tempo de duração marcado em cada pose que me impressiona para reproduzí-lo e representá-lo em estúdio. Algumas poses duram cinco minutos, outras quarenta. Por isso é importante estar com o físico e a mente bem condicionados. É então que a yoga me dá suporte para me manter longo tempo numa mesma pose. Ficar 40 minutos em uma posição sem se mexer não é fácil, o corpo começa a reclamar, mas a yoga me auxilia através da respiração e, de uma certa maneira, consigo controlar a dor. Como modelo posso dizer que é um trabalho onde a musculatura é constantemente fortalecida. Para quem passou muito tempo praticando yoga, trabalhar nesta área me faz sentir numa meditação zen.
Uma das coisas que aprecio no trabalho dos artistas é a diversidade de estilos, partindo do figurativo puro para o figurativo abstrato e geométrico, escolas impressionistas e expressionistas ou mesmo usando o modelo vivo para retratar paisagem. Em termos de escultura os artistas e alunos preferem trabalhar com cerâmica e argila. Trabalhar com escultores requer muito mais condicionamento físico, pois é uma única pose para horas, dias e até semanas de trabalho.
Alguns grupos, principalmente em escolas públicas, eu acompanho desde o início do projeto. Vejo toda a evolução do artista ou do aprendiz. Do aprendizado até a exposição do trabalho. Isso dá um prazer enorme, tanto pra mim quanto pra eles. Acabo sendo recompensada ganhando de presente diversos originais e já tenho um bom acervo em casa. Um dos pontos positivos no meu trabalho de modelo são as verdadeiras amizades que tenho feito. Com meus amigos - artistas e também modelos - fazemos bons programas nos fins-de-semana, como irmos a exposições e aberturas de exposições, bons motivos para conversarmos mais sobre arte.
Esse é um ponto legal nesse trabalho, lidar e conhecer vários tipos de pessoas, lugares, estilos. Eu poso para alunos de escolas públicas que não pagam pelas aulas e alguns deles são deficientes físicos; para idosos que não têm cabeça de idoso, que não querem ver a vida parada e para artistas renomados. Cada trabalho me leva pra um canto diferente dessa cidade. Acho que conheço partes de Londres que nem mesmo os londrinos em geral sabem que existe. Posso ter trabalho de manhã em Twickenham (Middlesex), depois ir para Wimbledon ou Richmond e finalizar em Hackney, passando por Covent Garden. Eu costumo brincar dizendo que meu dia-a-dia é andar de metrô e tirar a roupa.
Parece estranho dizer isso: tirar a roupa. As pessoas raramente entendem o trabalho de modelo vivo. E é por isso que eu gosto da Europa. As pessoas daqui ou que vivem aqui sabem a diferença entre arte e pornografia. Meu namorado, que é alemão, curte todos os meus trabalhos. Meus filhos e minha família no Rio adoram, eu sempre mando uns desenhos pra eles. Eles sabem que eu não estou aqui me prostituindo, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas infelizmente no Brasil as pessoas ainda não conseguem diferenciar isso. Acham que porque eu tirei a roupa eu sou prostituta. Muitas pessoas não sabem que é um trabalho muito organizado e respeitado. Por exemplo, quando termina o tempo de uma pose, e os artistas precisam continuar, eles me perguntam se podem tirar uma foto para que o trabalho não seja interrompido. Eu anoto o nome e o telefone de cada um atrás da foto, para evitar que a imagem acabe sendo usada de maneira errada, como na internet por exemplo. É orientação da própria agência. É um trabalho realmente sério.
A Europa, talvez por ser um continente muito antigo e por ter tido uma formação diferente da América do Sul (e no caso o Brasil), é um lugar feito para artistas.
Modelos vivos não são marginalizados.

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