NÚMERO 61 - LONDRES - 15/AGO/04 - 15/SET/04
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Um Dia na Vida de...

Mariá Rodrigues

Tentando fazer uma entrevista para "um dia na vida de…" Mariá, 49 anos, foi parar num pronto-socorro, onde se horrorizou com o atendimento médico oferecido pelo sistema de saúde inglês.



Meu plano era um encontro com Rejane Fernandez Fewell para uma conversa sobre seu trabalho como assistente social. Mas, no dia da entrevista, Rejane levou um tombo e machucou o joelho. Foi assim que me vi entrando num pronto-socorro em Barnet com a suspeita de que tinha perdido uma excelente matéria.
Descobri que, apesar de todas as diferenças entre Londres e Rio de Janeiro, há algo de familiar: o atendimento hospitalar. São horas e horas, para quem não está morrendo ou precisando ser internado, passadas num banco desconfortável, nada adequado para quem se queixa, como Rejane, do joelho distendido, que lhe provoca fortes dores, desde o cóccix até o dedo mindinho.
Sobre o INSS do Rio paro por aqui, confiando que todos tenham na memória uma cena ou outra daquele Inferno de Dante, tantas vezes passadas e repassadas na TV. Voltando à Barnet, depois de três horas esperando que Rejane fosse atendida, comecei a notar a desproporção alarmante entre o número de médicos e enfermeiros e a quantidade de gente na sala de espera.
Um médico saiu de um saguão dividido em alas por cortinas e, para fazer um rápido diagnóstico da situação em que nos encontrávamos, indaguei quantos deles haviam na emergência. Respondeu que eram cinco ou seis. Perguntei se aquele era o pronto-socorro, onde as pessoas deveriam ser atendidas “prontamente” e, para ilustrar a realidade, mostrei ao médico uma senhora bastante idosa, sentada numa cadeira de rodas, enrolada em um cobertor, sem qualquer assistência.
Eu via poucos pacientes saírem do saguão e imaginava que, para estarem indo embora naquele horário, deviam ter vindo pela manhã. Cheguei com Rejane às seis da tarde, já eram nove horas e nenhum exame tinha sido realizado.
Do meu lado, duas mulheres, que chegaram com os filhos antes de nós, esperavam enquanto as crianças, cansadas, dormiam pelos bancos infectados do hospital. Às nove e quinze, assim que uma delas foi chamada, senti vontade de reclamar e fui perguntar para a recepcionista por que havia tão poucos médicos no pronto-socorro. Ela não gostou da impertinência, mas respondeu que o hospital carecia de verba. Espertamente não me deu chance para a segunda pergunta, dirigindo-se imediatamente à outra recepcionista.
Na minha impotência comecei a divagar e a lembrar que chamamos os brasileiros de conformistas. Mas, o que dizer sobre os cidadãos da Inglaterra, integrante do G8? Deste país poderoso que, junto com os Estados Unidos, pilotou uma nova guerra? Tony Blair deveria dar um ‘look around’ no serviço público que está oferecendo ao povo, antes de criar mais casualidades mundo afora.
É verdade que há exceções em todas as regras e no atendimento de pronto-socorro também. Fiquei sabendo que se Rejane tivesse ido para Airedale General Hospital, teria sido atendida no máximo em uma hora.
Vinte para as dez da noite, lá estava eu escrevendo este artigo e Rejane nada de ser atendida. Eu já começava a pensar que nunca mais sairíamos dali. Entrei num delírio de que tínhamos direito a ser tratadas como hóspedes num hotel, relaxando na sala de televisão, com salgadinhos, chocolates, refrigerantes, sanduíches, ou, pelo tempo que estávamos esperando, já tínhamos atingido o estágio de direito a lanche gratuito. Mas não era tão ruim, havia uma área de lazer para as crianças - pateticamente vazia.
Tem outra diferença entre o pronto-socorro carioca e o londrino: as fichas coloridas. Vermelha, laranja e amarela para atendimento rápido. Mas se for verde ou azul, coitado, vá para casa buscar o colchonete. Quem não for “caso de emergência” espera no mínimo quatro horas, dependendo da avaliação da recepcionista.
Rejane foi atendida às dez e vinte da noite. Durante a consulta, o médico foi interrompido por outro lhe oferecendo cigarro. O médico, com cara de Pierce Brosnan (do filme James Bond), parecia um Robocop, tamanha a frieza do atendimento. Quero crer que tivesse olhos eletrônicos implantados no rosto, e que tenha conseguido enxergar tudo o que precisava na olhada superficial que deu no joelho da Rejane. A consulta não durou mais do que cinco minutos e foi-lhe receitado um analgésico, sem que lhe perguntassem se tinha alergia a aspirina. Uma vez encaminhada para o Raio-X, finalmente apareceu uma merecida cadeira de rodas.
Mais tempo de espera, e atendimento que é bom, nada. E onde foi parar o equilíbrio funcional em health care? Equilíbrio funcional é a ação de dar suporte prático e emocional para pessoas com debilidade física ou mental, independente da relação pessoal entre elas. Nisso se inclui o respeito ao paciente, ouví-lo, auxílio com cortesia, trabalho em equipe que entenda o quadro clínico e, no caso do pronto-socorro, a prontidão para atender ou pelo menos identificar imediatamente os casos de emergência.
Imobilizaram a Rejane! Deram uma vacina antitetânica nela, encaminharam-na para outro departamento, com consulta marcada para a mesma semana. Apesar disso, saí do pronto-socorro com a impressão de que este sistema de saúde caminha para o autismo. Que prevaleça a medicina preventiva! Melhor seria que o ser humano chegasse rápido à perfeição. Clonagem, seres plastificados, com pernas atarrachadas, chips no cérebro. “It's evolution, baby!”. Qualquer coisa que nos afaste do pronto-socorro.
Um aviso alerta que todos os pacientes serão atendidos por ordem de prioridade e não de chegada, e que prioridade especial será dada às crianças e idosos. E a velhinha continuava ali sentada na cadeira de rodas, invisível para os profissionais.
Finalmente cheguei em casa sã e salva, no dia seguinte. Mas e o “Um Dia na Vida de Rejane”?
Fica para outro mês…

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