|
|
 |
 |
|
Comida
 |
 |
Kledir Ramil, cantor, compositor e escritor, forma com seu irmão a dupla Kleiton & Kledir. É autor de crônicas bem humoradas que têm sido publicadas por alguns dos maiores jornais e revistas do Brasil.
|
Hipócrates, o pai da medicina, disse que “o homem é o que ele come”. Partindo desse pressuposto, podemos afirmar que “uma família é o que ela come”.
As características comuns e as semelhanças físicas são resultado do cardápio que se repete. As pessoas vão ficando com a cara dos alimentos que consomem. Isso é visível ao longo da história da humanidade, é só fazermos uma análise cuidadosa dos povos e seus costumes.
Os orientais são amarelos porque, como todos sabem, a comida básica deles é o milho. Os indígenas norte-americanos têm a pele avermelhada por causa do exagerado consumo de tomates. Os africanos não eram tão escuros, ficaram assim na época da escravidão no Brasil, onde eram obrigados a comer feijoada todos os dias. Os europeus são totalmente desbotados por culpa do pão francês e do arroz branco, que foi trazido da China por Marco Pólo. Uma sonda espacial da Nasa descobriu recentemente em Marte imensas plantações de brócolis, o que explica a coloração esverdeada dos marcianos. E por aí vai.
A comida realmente deixa marcas para sempre, especialmente o que se come na infância. É uma grande ironia, talvez uma praga dos deuses da culinária: a gente cresce, conhece o mundo, janta nos melhores restaurantes, mas não consegue esquecer “aquele arroz da Dona Clotilde”. Certos sabores ficam gravados e condicionam nosso paladar pelo resto da vida.
Dizem que o homem escolhe a mulher para casar com a perspectiva de que ela possa imitar razoavelmente as receitas de sua mãe. Eu, por exemplo, estou à beira de pedir o divórcio porque minha mulher até hoje não acertou o ponto do Doce de Abóbora.
Há uma expressão que diz que “a mulher agarra o homem pelo estômago”. Foi o meu caso, fui seduzido por uma irresistível Pasta de Berinjela com Pão Árabe. Claro, a cozinheira não era de se jogar fora, mas o fundamental foi o lanche.
Não sei exatamente que tipo de ingredientes misteriosos elas usam, talvez uma poção mágica. O que posso garantir é que a coisa funciona, por isso mesmo é preciso tomar cuidado. É aí que mora o perigo. Você não pode deixar com essas feiticeiras o controle absoluto do território da cozinha. Elas são ardilosas, possuem segredos milenares de encantamentos secretos. Observe bem sua casa. Abra o armário da cozinha. Vai encontrar um “caderno de receitas”. Um alfarrábio, aparentemente inofensivo, meio lambuzado de manteiga e farinha de trigo. Na verdade é um guia de magia oculta, escrito em linguagem cifrada, com fórmulas para dominar o mundo. Eu sei, a comida fica uma delícia, mas você não tem a menor idéia do que está engolindo.
As mulheres formam uma confraria esotérica que prega a soberania do matriarcado no seu grau mais elevado, que é como vivemos hoje dentro de casa. O movimento tem se propagado através da circulação de receitas manuscritas, passadas de mão em mão, de lábio a ouvido. Já chegaram ao requinte de invadir a televisão, a comunicação de massas (nos dois sentidos), em programas perigosos como o da apresentadora Ana Maria Braga.
Você pode achar que tudo isso é paranóia, mas observe bem o sorriso enigmático no rosto de sua esposa, no próximo jantar. Faça de conta que não está percebendo nada, aproveite a refeição, porém fique atento.
A riqueza do mundo, hoje, já não é mais medida pela quantidade de ouro acumulado. São números de pulsos eletrônicos, fluxos bancários e outros parâmetros cada vez mais invisíveis. Dizem que num futuro próximo, o verdadeiro poder será de quem tiver mais informação. Sei não, eu apostaria nesse enorme potencial das receitas da culinária caseira. É um investimento seguro, barato (só precisa de um lápis e um caderno) e com a possibilidade de produzir um arsenal de armas químicas.
Nós, homens, temos que estar preparados para essa guerra. Precisamos retomar o controle da situação, senão do mundo, pelo menos do orçamento doméstico.
Eu já tomei uma atitude: comprei vários livros de receitas e comecei a praticar a pilotagem de fogão. Ontem liguei pra minha mãe e aprendi a fazer a Abobrinha Recheada da Dada e a Massa Verde da Vó Ramila. Em caso de batalha usarei uma arma secreta, uma Sopa de Aveia com Clara de Ovo que é uma bomba.
Pode ser que minhas previsões não se confirmem e tudo isso não passe de devaneios. De qualquer forma, aconteça o que acontecer, fome eu não passo.
Kledir Ramil

|
|
|
|
|
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
|
|