NÚMERO 61 - LONDRES 15/AGO/04 - 16/SET/04
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Um Dia na Vida de...

Almir de Moraes

'Chen' Almir Itajahy de Moraes, 45 anos carioca de Vaz Lobo, veio para cá em 95 depois de ter perdido tudo no Brasil. Estabelecido e tranqüilo, ele conta as experiências que já passou e que contribuíram a não voltar mais ao Brasil




A minha vida já teve muitos altos e baixos, e posso dizer que este período é um dos mais tranqüilos.
Estou aqui desde 1995, depois de ter saído do Brasil com muitas dívidas, problemas e falta de perspectiva. Sempre fui uma pessoa empreendedora, e devido a isto me meti em problemas, contando que a situação financeira brasileira não fosse me atingir. Foi devido a esta confiança que perdi tudo que tinha.
Com 19 anos era soldado da Aeronáutica em meio período, estudava engenharia civil, trabalhava com massagem, acupuntura e também com produtos alternativos. Confesso que todo mundo teve sorte que não me formei como engenheiro; após 5 anos ainda estava no 3º ano. Alguns dos meus amigos demoraram 14 anos para se formarem. Finalmente acabei me formando em Administração de Empresas. Mas aí já tinha sido descoberto como massagista e é engraçado como isto aconteceu. Uma das minhas amigas de faculdade, que era também modelo, vivia reclamando de stress e me ofereci para dar uma massagem. Ela gostou tanto que começou a me indicar para os amigos. Foi aí que decidi começar a fazer um curso de massagem e depois de acupuntura. Em pouco tempo já tinha um bom número de pacientes, o que me possibilitou abrir um consultório na Tijuca aos 23 anos.
Minha vida estava bem esquematizada, embora bem corrida. Depois de vários anos saí da Aeronáutica, pois ganhava 10 vezes mais com acupuntura e massagem. Uma coisa foi puxando a outra e em pouco tempo já era sócio de outro consultório, tinha duas loja de produtos alternativos, uma delas vendendo apenas produtos importados, um restaurante e, no pouco tempo que sobrava, treinava Jiu-Jitsu, pois era faixa-preta desde os 18 anos.
Tudo indo de vento em popa, graças também ao fato de estar escrevendo e aparecendo em jornais como 'O Globo' e 'Manchete', falando sobre acupuntura, medicina natural etc. Com 5 empregados e uma clientela bem firme, a tendência era crescer.
Quando a recessão chegou, em 94, tudo mudou. Como em época de incerteza as pessoas só procuram gastar no essencial, as lojas, depois o restaurante e finalmente o consultório receberam todo o impacto. O restaurante passava dias praticamente vazio. É incrível como a realidade no Brasil funciona. Quando a recessão, aliada à falta de política financeira coerente do governo, levam o comerciante a falir, a falha é considerada do indivíduo e ele está sozinho, sem nenhum apoio. Não adiantou nada querer inverter a situação. A minha ambição de estar financeiramente estável aos 45 anos foi por água abaixo. Foi um período tão conturbado e sem expectativa que a única saída que vi foi a de desaparecer.
Em 95, com 52.000 reais de dívidas, 11 anos sem férias e trabalhando 14 horas por dia, entreguei as lojas para a minha irmã, o restaurante para a gerente, o consultório para a sócia e comprei uma passagem para cá, pois uma das minhas pacientes era de Londres e havia me convidado a morar aqui.
A primeira coisa que aconteceu comigo quando cheguei aqui foi ficar um mês de cama, doente. Não era para menos. Estava super-estressado, com 200 dólares no bolso, não falava nada de inglês e só conhecia essa amiga. Depois de 3 meses aqui, decidi voltar ao Brasil, devido a depressão. Não adiantou nada. Depois de três meses resolvi voltar para cá e encerrei definitivamente o Brasil.
Depois de 2 anos trabalhando como jardineiro e zelador de colégio, minha oportunidade chegou, e foi graças aos irmãos Gracie, peritos em Jiu-Jitsu no Brasil. Quando eles foram mostrar a arte nos Estados Unidos, em 93, eles criaram uma comoção, pois desafiaram as outras artes marciais e ganharam todas. Mostraram que luta é decidida no chão e que este negócio de ficar dando soquinho em pé é coisa de filme americano.
O namorado da minha professora de inglês era perito em Kung Fu e estava interessado em aprender Jiu-Jitsu brasileiro. Como havia tirado meu diploma em 92, quando a arte foi regulamentada, me ofereci a ensiná-lo. Em pouco tempo já tinha vários alunos e a partir de 98 pude viver apenas das aulas. Quem diria que um tapa que levei aos 11 anos de um capoeirista por causa de uma pipa fosse definir o meu futuro!!
Depois de 4 anos dando aulas a minha vida é bem pacata. Dou aulas uma hora por dia seis dias por semana, e já tive mais de 700 alunos, a maioria ingleses, um deles sendo o marido da Madonna, que ainda hoje freqüenta minhas aulas, a classe tem cerca de 15/20 alunos. Como tenho muito tempo disponível, fundei uma associação de Jiu-Jitsu, fiz alguns cursos, como primeiros socorros, vários na área de saúde alternativa, além de ter promovido em Londres seis campeonatos europeus de Jiu-Jitsu brasileiro. Como a arte do Jiu-Jitsu brasileiro ainda não pegou bem em termos de popularidade, não tive o retorno financeiro desejado, o que me fez ficar por muito tempo no negativo. Foi o preço que paguei por ser o pioneiro…
A história do Jiu-Jitsu é bem interessante. Ele começou a uns 2.000 anos na Índia como forma dos monges budistas se defenderem. Por isso, é mais uma arte defensiva do que propriamente ofensiva. Muitos gostam do Jiu-Jitsu porque não há necessidade de se dar socos ou pontapés. Fica fácil imobilizar a pessoa e fazer ela se submeter, ficar quieta, ou do contrário pode-se quebrar um braço ou outra parte do corpo. Depois disto ela fica quieta, mesmo contra à vontade. O trabalho todo fica por parte das juntas e articulações. É uma arte que dá para se praticar a vida inteira. Da Índia ela se espalhou para a China e Japão, onde se estabeleceu até 1930, quando então foi para o Brasil, que hoje pratica o melhor Jiu-Jitsu do mundo.
Comparo muito a minha situação aqui com a que havia no Brasil. Estou aqui há 6 anos sem cobrar mais nas salas de aula, existe uma estabilidade econômica, tem trabalho para todo mundo, ganho bem sem precisar morrer de trabalhar e não me identifico mais com a mentalidade brasileira. Este país me fez ver as coisas de maneira diferente. Aqui sinto que o trabalho do indivíduo é mais valorizado. Hoje em dia acho incrível que no Brasil o governo faça o que quer, como por exemplo segurar o dinheiro do indivíduo, cobrar as taxas que quer etc. Lá não se tem como planejar a vida. Acho que no Brasil muita coisa ainda não é organizada.
Apesar de tudo que criei e consegui, agora está na hora de partir de novo. No final de janeiro estou me mudando para Barcelona com a minha namorada, que é de lá. Talvez fiquemos por lá mesmo. Já tenho vários contatos, o que facilitará montar uma outra academia. Coloquei um representante aqui que irá dar continuidade à Associação. Depois de me estabelecer na Espanha pretendo trazer minha mãe, que está com 91 anos.
Começar de novo, dando aulas e cuidar das minhas coisas. Como não sou uma pessoa ambiciosa, acho que não terei problema nenhum em me ambientar.
Minha situação no Brasil está definida. No ano passado fui ao Rio de férias e não gostei do que vi. A violência e os mesmos problemas etc. Não senti saudades de nada de lá à parte de minha família e amigos, que por sorte estão bem. O fato de ter construído um castelo na areia e ter perdido tudo faz com que eu esteja desiludido com o país. No Brasil penso em voltar mais somente para férias, pois cheguei à conclusão de que lá já não é mais a minha praia…

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